quinta-feira

Propósitos de Ano Novo



Em vésperas de passagem de ano todos acabamos, fatalmente por fazer balanços e propósitos. É inevitável e faz parte da época. A proximidade de um ano novinho em folha traz a certeza de que é possível fazer algumas coisas de novo e esta ideia inaugural não só é muito construtiva, como também pode revelar-se muito produtiva. Tudo depende da maneira como nos propomos recomeçar o ano e a vida.
Antes de apanhar balanço para enunciar os propósitos de Ano Novo, vale a pena parar e pensar. Olhar para trás, conferir o passado próximo e perceber o que está a precisar de ser mudado, melhorado e recriado.
Este olhar deve ser, ao mesmo tempo, um olhar prospectivo, no sentido em que se trata de ir atrás ver aquilo que pode ser melhorado para a frente.
Podemos fazer isto de uma maneira leve, fácil e, de certa forma, superficial ou podemos ir mais fundo e tocar o essencial das questões que, tantas vezes, nos impedem de ir mais longe.
Um dos maiores obstáculos à mudança é justamente a tentação recorrente de fazer muitos propósitos e de querer mudar muita coisa ao mesmo tempo. Mesmo correndo o risco de me repetir, insisto que quem quer mudar tudo, acaba por não mudar nada.
Nesta lógica importa perceber qual é o ponto em que tenho de mexer para que toda a minha vida mude. Ora, isto só pode ser feito com verdade e profundidade. Requer tempo e exige uma estratégia coerente e consistente, portanto.
Como não é possível mudar tudo da noite para o dia e como tudo se constrói passo a passo, de forma gradual e paciente, a ideia é pegar num ponto (nunca mais do que um, insisto), trabalhar esse ponto e ficar muito atento.
A cautela, a atenção e a persistência são as grandes virtudes que acompanham a mudança. Não uma cautela medrosa ou tímida mas uma prudência sábia, consciente e realista. A atenção, por seu lado, implica cuidado e concentração, atitudes que, por si só, favorecem toda e qualquer mudança. A persistência permite pôr os meios para atingir os fins sem desistir a meio do caminho.
Posto isto, há uma estratégia razoavelmente infalível que nos permite ir mais longe neste caminho de transformação interior: identificar em nós O defeito e encontrar A virtude oposta. Parece difícil mas é infinitamente mais fácil do que se imagina.
Traduzindo por palavras mais concretas, uma pessoa que reconhece que o seu maior defeito é a preguiça, terá de se concentrar na virtude que se lhe opõe: a capacidade de ter iniciativa própria. E quem diz a preguiça, diz outros defeitos mais ou menos confessáveis que têm em comum a paralisia que provocam em nós.
A ideia de procurar a virtude oposta ao defeito tem a ver com a noção de propósitos na medida em que os defeitos só se eliminam se conseguirmos trabalhar as virtudes que se lhes opõem.
Ou seja, ao deixarmos de nos concentrar no defeito e passarmos a viver apostados na virtude que se lhe opõe, estamos a desenvolver em nós um poderosíssimo motor de transformação.
Dizem os especialistas nestas matérias comportamentais e de motivação que nos devemos dar conta, três vezes ao dia, da virtude que queremos desenvolver. Com algum humor aconselham mesmo três tomas: ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar.
Ter muito presente aquilo que quero mudar e fazê-lo desenvolvendo a virtude que se opõe ao meu defeito é um truque muito eficaz. Ás vezes falha, mas muitas vezes resulta e, só por termos sido capazes de mudar um ponto, muita coisa floresce em nós e à nossa volta.


(Laurinda Alves. Dezembro 2006)