(des)norteada

sexta-feira

Curtas

A verdade da verdade é que ela magoa. E por isso, mentimos e iludimo-nos sempre que conseguimos...

segunda-feira

Cada um faz a sua parte



Passamos a vida a dizer que gostávamos que houvesse mais justiça e mais paz no mundo mas esquecemo-nos de que também está nas nossas mãos mudar o mundo.
Não o mundo inteiro, de uma só vez, mas o nosso mundo interior e o pequeno mundo à nossa volta. Isto porque nada nem ninguém conseguirá mudar o mundo, como um todo, do dia para a noite. Mas o mundo inteiro muda se cada um de nós mudar um bocadinho e é fascinante perceber isso.
É incrível ver como certas pessoas e certas coisas mudam só porque nós mudámos primeiro. Comove assistir a esta dupla mudança. Aliás. Diria mesmo esta múltipla mudança, pois trata-se de uma transformação multiplicada por mil mais mil.
Parece exagero? Não é. Muito pelo contrário e a prova evidente deste efeito multiplicador e contagiante são as ondas concêntricas que se formam no lago quando atiramos uma simples pedrinha à água. As ondas começam por ser círculos apertados que se vão alargando à medida que o movimento evolui e é este movimento que a pequena pedra provoca que mostra que, por um lado, as ondas não podem deter e, por outro, nada fica igual.
A ideia das pedrinhas que se atiram ao lago é simples mas eloquente. Permite visualizar o movimento e a coisa deixa de ser uma abstracção. No concreto também se aplica à ideia de mudar o mundo, de construir mais justiça e mais paz, entre tantas outras coisas.
Voltando à questão íntima, do mundo interior, de onde tudo parte e onde tudo é possível, vale a pena sublinhar que, também em matéria de mudança, cabe a cada um fazer a sua parte e não ficar à espera que os outros façam tudo.
E abro aqui um parêntesis para lembrar uma atitude demasiado passiva, demasiado céptica ou demasiado crítica em relação aos outros impede quase sempre a verdadeira transformação interior. Onde, insisto, tudo acontece.
Antes de fechar o parêntesis ainda aproveito para dizer que, de uma forma abreviada e certamente grosseira, os passivos são aqueles que passam a vida a dizer “se”: se o meu chefe fosse mais justo eu trabalhava melhor; se a minha casa fosse maior eu convidava mais os meus amigos; se eu fosse mais magro era mais feliz; se fosse rico ajudava mais os pobres e por aí adiante. Os cépticos são os que acham que já viram tudo, já sabem tudo, já viveram tudo e, por isso, não há nada nem ninguém capaz de os surpreender e, finalmente, os hipercríticos são aqueles que passam a vida a desperdiçar o melhor do seu tempo e do que têm dentro de si a olhar para os erros e as faltas dos outros. E fecho o parêntesis.
Retomando o fio da conversa sobre a ideia de mudar o mundo partindo da transformação do nosso mundo interior, da nossa atitude e da nossa motivação mais funda, importa perceber que não se trata de cultivar uma atitude de resignação nem de esperar uma magia. Muito pelo contrário, trata-se de levar à letra a ideia de que cada um tem de fazer a sua parte mas, em primeiro lugar, eu tenho de fazer a minha. Mais do que ficar atento aos outros ou às suas faltas, é essencial virar-me para dentro e perceber o que é que em mim pode ser mudado e convertido num contributo positivo.
Apostar numa atitude construtiva exige tempo e paciência. Muita persistência também. E mais, obriga-nos a desmontar algumas peças e a rever toda a engrenagem. Obriga a desmontar egoísmos, preguiças, ideias feitas, faltas de amizade, de generosidade e outras coisas assim. É um trabalho demorado e, por vezes, chato. Custa e chateia, mesmo. Mas vale a pena fazê-lo porque, depois, a máquina fica incrivelmente mais bem montada e oleada e muita coisa passa a correr sobre rodas, como se costuma dizer. Ou, de uma forma mais séria, só então as coisas acontecem. As coisas que permitem construir um mundo melhor, quero dizer.

(Laurinda Alves. Janeiro 2007)

quinta-feira

Propósitos de Ano Novo



Em vésperas de passagem de ano todos acabamos, fatalmente por fazer balanços e propósitos. É inevitável e faz parte da época. A proximidade de um ano novinho em folha traz a certeza de que é possível fazer algumas coisas de novo e esta ideia inaugural não só é muito construtiva, como também pode revelar-se muito produtiva. Tudo depende da maneira como nos propomos recomeçar o ano e a vida.
Antes de apanhar balanço para enunciar os propósitos de Ano Novo, vale a pena parar e pensar. Olhar para trás, conferir o passado próximo e perceber o que está a precisar de ser mudado, melhorado e recriado.
Este olhar deve ser, ao mesmo tempo, um olhar prospectivo, no sentido em que se trata de ir atrás ver aquilo que pode ser melhorado para a frente.
Podemos fazer isto de uma maneira leve, fácil e, de certa forma, superficial ou podemos ir mais fundo e tocar o essencial das questões que, tantas vezes, nos impedem de ir mais longe.
Um dos maiores obstáculos à mudança é justamente a tentação recorrente de fazer muitos propósitos e de querer mudar muita coisa ao mesmo tempo. Mesmo correndo o risco de me repetir, insisto que quem quer mudar tudo, acaba por não mudar nada.
Nesta lógica importa perceber qual é o ponto em que tenho de mexer para que toda a minha vida mude. Ora, isto só pode ser feito com verdade e profundidade. Requer tempo e exige uma estratégia coerente e consistente, portanto.
Como não é possível mudar tudo da noite para o dia e como tudo se constrói passo a passo, de forma gradual e paciente, a ideia é pegar num ponto (nunca mais do que um, insisto), trabalhar esse ponto e ficar muito atento.
A cautela, a atenção e a persistência são as grandes virtudes que acompanham a mudança. Não uma cautela medrosa ou tímida mas uma prudência sábia, consciente e realista. A atenção, por seu lado, implica cuidado e concentração, atitudes que, por si só, favorecem toda e qualquer mudança. A persistência permite pôr os meios para atingir os fins sem desistir a meio do caminho.
Posto isto, há uma estratégia razoavelmente infalível que nos permite ir mais longe neste caminho de transformação interior: identificar em nós O defeito e encontrar A virtude oposta. Parece difícil mas é infinitamente mais fácil do que se imagina.
Traduzindo por palavras mais concretas, uma pessoa que reconhece que o seu maior defeito é a preguiça, terá de se concentrar na virtude que se lhe opõe: a capacidade de ter iniciativa própria. E quem diz a preguiça, diz outros defeitos mais ou menos confessáveis que têm em comum a paralisia que provocam em nós.
A ideia de procurar a virtude oposta ao defeito tem a ver com a noção de propósitos na medida em que os defeitos só se eliminam se conseguirmos trabalhar as virtudes que se lhes opõem.
Ou seja, ao deixarmos de nos concentrar no defeito e passarmos a viver apostados na virtude que se lhe opõe, estamos a desenvolver em nós um poderosíssimo motor de transformação.
Dizem os especialistas nestas matérias comportamentais e de motivação que nos devemos dar conta, três vezes ao dia, da virtude que queremos desenvolver. Com algum humor aconselham mesmo três tomas: ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar.
Ter muito presente aquilo que quero mudar e fazê-lo desenvolvendo a virtude que se opõe ao meu defeito é um truque muito eficaz. Ás vezes falha, mas muitas vezes resulta e, só por termos sido capazes de mudar um ponto, muita coisa floresce em nós e à nossa volta.


(Laurinda Alves. Dezembro 2006)

terça-feira

Desnorteada




(Des)Norteada,
(des)enformada,
digo agora o que penso
num triste e longo lamento
sinto-me toda amarrotada.

(Des)Membrada,
(des)troçada,
hoje e sempre (des)enquadrada,
atiro palavras ao vento
olho o futuro siderada
quero partir para o barlavento
mas o eco não me traz nada

(Des)pejada,
(des)orientada,
troco passos nesta trilha,
a vida passada deito fora
que o futuro baila agora
e essa dança não quero perder.
Esta sina não é minha
pois não moro numa ilha
abandonada ou sozinha
e quero felicidade até morrer.